COLUNISTA -
Daniel dos Santos, colunista e correspondente da FORCV em Lisboa, é mestre e doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais. É jornalista, professor universitário de profissão e investigador em Ciência Política, Comunicação e Marketing Político.
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Em tempos de festa, a poucos dias de passarmos de um ano para o outro, nada melhor do que nos mergulharmos, ainda que a correr, no processo histórico, sociológico e antropológico que levou à formação de Cabo Verde, para dar à estampa este arrazoado. Tão simples e breve, que nos serviu, nesta quadra festiva, de reflexão quinzenal, deixando de lado os nossos assuntos domésticos, de cariz político, sobre os quais nos debruçámos, ultimamente.
Já na Antiguidade, Xenofonte, Plínio e Platão, nos seus escritos clássicos, falaram, insistentemente, de Gorgonas, Gorgades, Hespérides e Atlântida, em alusão a Cabo Verde. Camões navegou «pelas filhas do velho Hespério, Hespéridas», uma ilha que tomou o nome do guerreiro Sant´ Iago. Historiadores de jaez de Gonzalo de Reparaz e de Duarte Pacheco Pereira aludem ao Hesperido Promontoiro de que, por igual, falam Oliveira Marques e Immanuel Fridlander. Mais tarde, poetas das ilhas fizeram eco desta construção mitológica que reporta à existência de Cabo Verde na Antiguidade, retratada por Plínio na sua Naturalis Historia.
Fábulas? As certezas esbatem-se, a cada passo, porque profundas são as dúvidas que as rodeiam. O certo é que Pedro Cardoso, um dos homens grandes da nossa história, editou «Jardim das Hespérides» e «Hespérides». José Lopes, o vate hesperitano, um outro nome eminente de Cabo Verde, caminha na mesma direcção, fazendo-nos ambos acreditar que, a exemplo dos gregos e de tantos outros povos, temos um passado de mitos, de símbolos, de lendas, que precedeu a época da razão nas ilhas.
Mas Cristhiano Senna Barcellos, um egrégio filho da ilha Brava e do país, a quem devemos uma monumental obra de História, rejeita que Plínio e outros clássicos se tenham referido a Cabo Verde quando falavam das Hespéridas ou das Gorgonas, em defesa de cuja opinião, fundamentadamente, sustentada, expõe argumentos que o tempo e a exiguidade deste espaço não nos permitem descrever, como seria de supor, tal a importância do tema.
Hesperidum Insulae, de Plínio? Asperides, de Duarte Pacheco? Ou ainda Gorgónidas, de Travassos Valdez? Não é uma questão de escolha, sabido que se o fosse, o problema, certamente, não se nos apresentaria com particular acuidade. Seja como for, é frágil o asserto, por não ter prova documental que o ampare, segundo o qual os antigos tinham conhecimento da existência de Cabo Verde, antes da chegada dos portugueses.
As coisas poderiam ser mais fácies de entendimento, se, em redor da Carta de Andrea Bianco, de 1448, houvesse concordância quanto ao nome a dar a uma ilha autêntica, a tal ixola otinticha, perdida no Atlântico. No desenho do cartógrafo veneziano, que fez época nos meios historiográficos de então, a ilha de Santiago, conhecida por San Jacobo, era identificada por ixola otinticha. Theobald Fischer, F. C. Wieder e Fontoura da Costa apoiam Bianco por oposição a Oldham e a Jaime Batalha Reis, que o censuram, por julgarem que ixola otinticha se identifica com as Antilhas e, numa segunda hipótese, com o Brasil.
Tão pouco as nossas incertezas chegaram ao fim. Por provar está o conhecimento na Antiguidade de Cabo Verde, em cujo território, também, por provar está a existência da vida humana, antes da chegada dos portugueses. Auguste Chevalier, com base nas inscrições rupestres e de dólmens, achados na Boa Vista, no Maio, em Santo Antão e em S. Nicolau, assevera que tivemos um passado pré-histórico. Não é único a advogar a presente tese, que tem ainda o assentimento de João da Silva Feijó, António Pusich e José Chelmick.
Tanto os alegados descobridores de Cabo Verde, ao todo quatro, como os historiadores António Carreira, Simão Barros, António Brásio, Richard Patee, António Mendes Corrêa e Almerindo Lessa, entre outros, são concordes num ponto: o nosso país era um território res nullius, isto é, desabitado, quando os portugueses chegaram à Cidade Velha, embora alguns admitam que náufragos jalofos, perseguidos por felupes, tenham, muito fugazmente, passado por Santiago, não com a intenção de o povoar, mas para se esconderem dos seus inimigos.
A estas incertezas juntam-se outras, de tamanha importância: quem e em que data foi descoberto Cabo Verde? Diogo Gomes, António da Noli, Luiz Cadamosto e Vicente Dias reivindicam-no, sem contarmos com a tese de que o feito fora obra de chineses e de árabes, no séc. XII. Os historiadores nunca se puseram de acordo quanto a este facto importante da nossa história. A tese oficial, secundada, inter alios, por João de Barros, Gonzalo de Reparaz, Luís de Albuquerque e Duarte Leite, atribui o descobrimento de Cabo Verde a António da Noli.
Todavia, há quem discorde e dê o mérito a Diogo Gomes. Ínclitos historiadores, como Armando Cortesão, Frazão de Vasconcelo e Richard H. Major, subscrevem esta ideia. Perspectiva diferente tem Chevallier, Rinaldo Caddeo e Amat de S. Filippo, os quais sugerem, na linha da escola italiana de História, que Cadamosto foi, sine dubio, o descobridor de Cabo Verde. Outras vozes dissonantes, como Weider, Fontoura da Costa e Manuel Garcia, preferem Vicente Dias.
As dúvidas não cessaram ainda, havendo quem fale de «duplo descobrimento» das nossas ilhas. Sem querer entrar em mais polémicas, Christiano Senna Barcellos e Damião Peres são da opinião de que o descobrimento de Cabo Verde se deve a uma parceria entre Noli e Diogo Gomes, se bem que Damião de Góis e Oliveira Baldéo prefiram uma outra dupla, a de Cadamosto e Noli.
Afinal, quem foi o autor da proeza? Ninguém o sabe. A data do descobrimento está, de igual modo, longe de ser consensual. Entre 1445 e 1460, todas as datas são, por uns, aceites, e, por outros, repudiadas. Há, no entanto, uma que nos pode servir, de algum modo, de ponto de partida para o exame do problema – 1453, data em que Gomes Eannes de Azuzara deu à luz «Crónica dos Descobrimentos e Conquistas da Guiné», na qual expos, com minudência, os descobrimentos portugueses até 1448.
Por insignificante que fosse, o cronista do Infante Henrique não chegou, no livro em questão, a fazer nenhuma alusão ao nosso país, que, se à data tivesse sido descoberto, o faria, com certeza. No meio de tudo isso, José Artiaga Barreiros conforta-nos, ao dizer que não existe na Torre do Tombo nenhum documento referente a Cabo Verde antes de 1460. Ou seja, o mais antigo diploma relativo ao nosso país é a Carta régia de 3 de Dezembro de 1460, pela qual D. Afonso V, depois da morte de Infante D. Henrique, doou, perpétua e irrevogavelmente, algumas ilhas ao seu mano D. Fernando.
Dois anos depois, isto é, em 1462, António da Noli, acompanhado do seu irmão Bartolomeu, do seu sobrinho Rafael, dos freis Rogério e Jaime, naturais da Catalunha, e de alguns casais de Algarve e do Alentejo, aos quais se juntaram, mais tarde, genoveses e portugueses da Madeira e dos Açores, deu início, pela Ribeira Grande, à ocupação de Cabo Verde.
Não se tratou de colonização, mas de povoamento, porque as terras desabitadas são povoadas e não colonizadas, como ensinam os manuais da Sociologia Colonial. Noli foi, seguramente, como diz Senna Barcellos, o primeiro homem a lançar os alicerces de uma casa, em Cabo Verde. Foi o cabouqueiro do país que hoje temos, fundou-o. Depois, com a ajuda de escravos negros, vindos da antiga Guiné, que compreendia áreas que vão do Senegal à Serra Leoa, estendeu o povoamento a outros cantos.
Do cruzamento destes com os brancos europeus, nasceram o homem, a cultura, a língua cabo-verdianos, todos resultantes desta intensa miscigenação. Ao longo deste processo identitário, lançámos e cimentámos o espírito da Nação, construído no passado comum, na história, na cultura e na vontade de viver, conjuntamente, de partilhar os mesmos objectivos, os mesmos desejos, os mesmos sentimentos, as mesmas memórias e as mesmas aspirações.
É na tradição subjectivista de Ernest Renan – afinal, não é a Nação o plebiscito de todos dias? - que encontramos, nos antípodas das explicações de Herder e de Fichte, os mitos fundadores desta Nação quinhentista, que pôs de pé um Estado, em 5 de Julho de 1975.
A todos desejamos um Ano Novo de esperanças.
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