COLUNISTA -
Benvindo Rodrigues é Economista/MBA (Thunderbird, American Graduate School of International Management, U.S.A.) e Consultor Internacional.
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Enganados estávamos nós, quando pensávamos que o XII Congresso do PAICV, recentemente realizado, pudesse servir de fórum para o reconhecimento, por parte do conclave, do falhanço das políticas dos dois últimos governos que desgovernaram Cabo Verde.
Em vez disso, assistimos, estupefactos, a uma revisitação de velhos discursos do passado.
Foram homenageadas figuras que encabeçaram o regime opressivo que Cabo Verde conheceu de 1975 a 1990, designadamente os responsáveis de um regime que, todos sabemos, limitou a liberdade de pensamento e de acção de todos os que não liam pelo credo do PAIGC/CV.
Elogiou-se um regime que encarcerou cidadãos indefesos, só pelo facto de discordarem da linha ideológica decretada, e obrigou outros a partir para o exílio político no estrangeiro, um regime que tratou os cabo-verdianos emigrados como filhos de segunda, exigindo-lhes autorizações de saída para se ausentarem do país e vistos de entrada àqueles que optaram por uma nacionalidade de conveniência nos países de acolhimento.
Foi esse mesmo regime que ensaiou uma reforma agrária de triste memória. Esta só trouxe conflitos ao campo. As suas sequelas, até hoje, perduram na memória colectiva de muitos cabo-verdianos que tinham na terra pouco produtiva, o seu único sustento.
Foi a política seguida pelo regime do PAIGC/CV que sufocou quase tudo o que de iniciativa privada tentasse emergir em Cabo Verde, numa luta sem sentido contra uma suposta exploração do homem pelo homem, chavão copiado dos manuais comunistas e que nenhuma ligação prática tinha com a nossa realidade.
Tudo isto aconteceu em Cabo Verde e tem protagonistas bem conhecidos e ainda vivos, alguns deles hoje homenageados!
Nem a luta pela manutenção no poder, pode justificar o desrespeito do PAICV para com as inúmeras vítimas do regime totalitário implantado nos quinze anos subsequentes à independência nacional.
Essas pessoas e/ou os seus descendentes, no país ou na diáspora, e a sociedade cabo-verdiana, em geral, têm memória e lembram-se desses 15 anos. Por mais que se tente tapar o sol com a peneira, a verdade é uma só: houve repressão e o PAICV devia, publicamente, pedir desculpas à nação pelo que aconteceu, enquanto seu único responsável.
O tempo não é de homenagens àqueles que torturaram ou mandaram torturar. Não devemos dar maus exemplos à nossa juventude.
O tempo não é de homenagens a antigos dirigentes que, se tivessem sido audazes e esclarecidos na concepção e execução de políticas adequadas, Cabo Verde estaria hoje, seguramente, num patamar muito mais avançado de desenvolvimento humano, de integração social, nacional e global, com menos desemprego, menos pobreza, menos desigualdades, menos violência, menos crispação e mais crescimento e coesão social.
Faz vergonha ouvir de um Primeiro-ministro e do líder do partido que o sustenta, dizer que o PAICV construiu um estado de direito democrático, onde os direitos, as liberdades e as garantias dos cidadãos são respeitados. O PAICV parece pretender passar uma esponja por cima dos vários atropelos à lei e à dignidade dos cabo-verdianos.
Tenta enganar-nos a nós e aos mais jovens, partindo do princípio que ou somos todos tolos ou temos falhas de memória.
Será que pensam que acreditamos naquela conversa propagandística?
Se nem dentro do seu próprio partido, as correntes de opinião contrária encontram condições para se manifestarem, sem medo de represálias, o que não fazem o PAICV, os seus governantes e a sua rede de servidores para silenciar e marginalizar os que lhes fazem frente na administração pública, nos partidos políticos, nas organizações da sociedade civil, nas empresas públicas, nas frentes de alta intensidade de mão-de-obra, nas câmaras municipais, nas comunidades do país e da diáspora, que dependem de fundos públicos, distribuídos pelo poder, para a sua sobrevivência? Onde está a liberdade de uma pessoa, se o acto de discordar é punido sob formas mais subtis possíveis: colocação nas prateleiras, congelamento da promoção, supressão de auxílios e apoios, perseguição política, difamação e calúnia, afastamento de concursos públicos, por mais mérito e competência que se tenha, etc.?
No entendimento do JMN, o que fizeram os seus dois governos durante esses dez anos lhe dá muita satisfação, mas quando pedimos aos cabo-verdianos e às cabo-verdianas que façam a auto-avaliação do impacto dessas medidas, o sentimento é totalmente diferente. Ninguém parece vislumbrar melhorias em termos de crescimento económico, de redução sustentada do desemprego e da pobreza, de formação e qualificação profissionais à altura das exigências do mercado de trabalho, de melhores serviços básicos de água, energia, saneamento, educação, saúde, segurança, de coesão e equidade sociais, de integração das diásporas nas variáveis determinantes de políticas públicas, da redução das desigualdades sociais e das assimetrias regionais, numa só expressão, ninguém parece vislumbrar a melhoria do índice de desenvolvimento humano que os cabo-verdianos merecem e têm direito.
O discurso proferido por JMN revela um líder dessintonizado com o Cabo Verde real, de todos os dias, com os seus enormes problemas não resolvidos a que o Governo eleito não deu solução nos quase últimos dez anos como lhe competia fazer.
É preciso um grau mínimo de honestidade, de delicadeza e de respeito, quando um PM faz uma radiografia do estado do país num congresso do partido que o sustenta! Mais: as soluções para os novos tempos não foram delineadas, ao contrário do lema do congresso, o que revela a falta de novas ideias do líder que já não convence ninguém com as suas promessas, pois, de tanto as repetir ao longo dos quase dez anos de governação, o stock esgotou-se e não era para menos.